Os termos técnicos que aparecem nas resenhas, explicados em linguagem de clínico. As palavras que a literatura usa em inglês ficam em inglês, com o significado explicado aqui.
A medida feita antes de a intervenção começar, que serve de ponto de partida para calcular o quanto o paciente mudou. Em português diz-se "linha de base", mas a forma em inglês é a mais usada na literatura e nos relatórios de estudos.
O placebo de um procedimento físico. Num estudo de estimulação, o aparelho é posicionado normalmente e ligado, mas a corrente é interrompida logo depois de iniciar, o suficiente para produzir a sensação inicial na pele sem entregar a dose. O participante não distingue do tratamento verdadeiro. É o equivalente ao comprimido de açúcar num estudo de medicamento.
Nem o participante nem quem avalia o resultado sabem qual tratamento foi aplicado. Isso impede que a expectativa dos dois lados contamine a medida, o que importa muito quando o desfecho é relatado pelo próprio paciente, como dor.
Desenho que testa duas intervenções ao mesmo tempo, combinando as duas possibilidades de cada uma em quatro grupos. Permite responder a duas perguntas com uma amostra só e ainda verificar se uma intervenção muda o efeito da outra.
O desfecho primário é a pergunta principal do estudo, aquela para a qual o tamanho da amostra foi calculado. Os secundários são perguntas adicionais, medidas na mesma amostra, mas sem garantia de que haja participantes suficientes para detectar diferenças. Por isso um resultado negativo num desfecho secundário significa menos do que parece.
Mede o tamanho de uma diferença em unidades de desvio padrão, o que permite comparar resultados medidos em escalas diferentes. A convenção mais usada trata 0,2 como pequeno, 0,5 como moderado e 0,8 como grande. Um valor de p diz se a diferença existe; o tamanho de efeito diz se ela é grande o bastante para importar.
A probabilidade de observar uma diferença pelo menos tão grande quanto a encontrada, caso não existisse diferença real. O corte habitual de 0,05 é uma convenção, não uma fronteira entre verdadeiro e falso: 0,049 e 0,056 dizem praticamente a mesma coisa.
A faixa de valores compatível com os dados observados. Quando um intervalo de 95% inclui o zero, o estudo não conseguiu descartar a ausência de efeito. A largura do intervalo diz o quanto de incerteza há na estimativa.
Tendência estatística de valores extremos numa primeira medida ficarem mais próximos da média numa segunda, só porque parte do valor extremo era variação aleatória. Quem entra num estudo num momento particularmente ruim tende a melhorar mesmo sem tratamento nenhum, e isso pode ser confundido com efeito.
Método para lidar com dados faltantes. Em vez de descartar quem não completou todas as avaliações, o valor ausente é estimado várias vezes a partir das informações disponíveis, e os resultados são combinados. Preserva o tamanho da amostra, mas depende da suposição de que a falta não está relacionada ao próprio resultado.
Concluir que não há diferença quando na verdade há, geralmente porque a amostra era pequena demais para detectá-la. É o risco por trás da frase "ausência de evidência não é evidência de ausência".
Uma medida fisiológica ou laboratorial usada no lugar daquilo que de fato interessa ao paciente. Ela é atraente porque muda mais rápido e se mede com precisão, mas melhorar o substituto não garante melhorar o desfecho real. É por isso que se cobra a pergunta seguinte: o paciente se sentiu melhor?
O quanto uma medida se repete quando nada mudou no paciente. Costuma ser relatada em duas formas: entre avaliadores diferentes e do mesmo avaliador em momentos diferentes. Importa porque uma medida pouco confiável produz variação que parece efeito do tratamento mas é só inconsistência de procedimento. Quando um estudo não relata a confiabilidade do desfecho principal, fica impossível separar as duas coisas.
Avalia a qualidade metodológica de um ensaio clínico aleatorizado em 11 critérios, como alocação sigilosa, cegamento e análise por intenção de tratar. O primeiro critério trata de validade externa e não entra na conta, então o escore vai de 0 a 10. Uma leitura comum é que de 6 para cima o estudo tem boa qualidade metodológica. Duas ressalvas importantes: a nota mede como o estudo foi conduzido e relatado, não se o resultado é clinicamente relevante nem se o tamanho da amostra bastava; e a nota oficial é atribuída por avaliadores treinados da base PEDro, então uma avaliação feita por outra pessoa precisa vir rotulada como tal.
A revisão sistemática reúne, por método explícito e reproduzível, todos os estudos que responderam a uma mesma pergunta. A meta-análise combina os resultados deles num número só. Como junta muitos estudos, costuma pesar mais que um ensaio isolado. Mas uma comparação feita entre estudos diferentes dentro de uma meta-análise não equivale a uma comparação sorteada dentro do mesmo estudo: as populações e os protocolos variam, e parte da diferença pode vir daí.
Testa se o efeito de um tratamento sobre um resultado passa por um mecanismo intermediário. Se a mediação não aparece, o tratamento pode até funcionar, mas não pelo caminho que se imaginava.
Mede, em laboratório, o quanto o sistema nervoso consegue frear a própria dor. Aplica-se um estímulo doloroso controlado, o paciente pontua a dor, e em seguida repete-se o mesmo estímulo enquanto uma segunda dor acontece em outra parte do corpo, tipicamente a mão imersa em água gelada. Num sistema funcionando bem, a segunda dor recruta vias inibitórias descendentes e o primeiro estímulo passa a doer menos. O CPM é essa diferença. Em várias condições de dor crônica, inclusive na fibromialgia, essa frenagem aparece reduzida ou ausente.
O oposto do CPM. Aplica-se uma série de estímulos dolorosos idênticos, um atrás do outro, e mede-se o quanto a dor cresce do primeiro ao último. Quanto maior o crescimento, mais o sistema está amplificando o sinal em vez de filtrá-lo. Enquanto o CPM avalia a inibição, a somação temporal avalia a facilitação.
Técnica não invasiva que faz passar uma corrente elétrica fraca e contínua entre dois eletrodos posicionados no couro cabeludo. A corrente não dispara neurônios, apenas torna a região sob o eletrodo positivo mais ou menos propensa a disparar. No tratamento de dor, o alvo habitual é o córtex motor primário, cuja estimulação ativa projeções para estruturas subcorticais envolvidas na inibição da dor.
O conjunto de vias que desce do cérebro para a medula espinhal e reduz a quantidade de sinal doloroso que chega à consciência. É o freio endógeno da dor. Quando esse sistema falha, estímulos que não deveriam doer passam a doer, e estímulos dolorosos doem mais.
Estado em que o sistema nervoso central passa a responder de forma amplificada a estímulos, de modo que a dor deixa de refletir a quantidade de lesão nos tecidos. Explica por que na fibromialgia a dor é difusa e persistente sem dano tecidual proporcional.
Piora desproporcional dos sintomas depois de atividade física, frequentemente com atraso de horas ou de um dia. É uma das razões pelas quais pacientes com fibromialgia evitam exercício, e por que a progressão de carga precisa ser mais lenta do que em outras condições.
Questionário específico para fibromialgia que reúne função física, impacto global e sintomas numa pontuação única, em que valores mais altos indicam maior impacto da doença. É o desfecho mais usado em ensaios da condição.
Separa duas coisas que costumam ser confundidas: a intensidade da dor e o quanto ela interfere em atividades, humor, sono e relações. Essa separação é útil porque os dois blocos nem sempre melhoram juntos.
Avalia a qualidade do sono no último mês em sete componentes, entre eles latência, duração e disfunção diurna. Pontuação mais alta indica pior sono.
Questionário de autorrelato para intensidade de sintomas depressivos. É uma medida de gravidade de sintomas, não um instrumento de diagnóstico.
Sistema de questionários desenvolvido pelo NIH para medir desfechos relatados pelo paciente, como dor, fadiga e ansiedade, em escalas padronizadas que permitem comparação entre condições diferentes.
Linha contínua em que o paciente marca a intensidade da dor entre dois extremos. A medida é a distância até a marca, o que dá uma escala fina, sem os degraus de uma escala numérica.